As denúncias que podem derrubar Julio Casares da presidência do São Paulo

O Conselho Deliberativo do São Paulo votará na sexta-feira (16) o pedido de impeachment de Julio Casares. São necessários 75% dos votos — 171 dos 254 conselheiros aptos a votar — para que o presidente seja destituído do cargo.

O resultado da votação ainda é difícil de prever. Nas últimas semanas, a coalizão que dava apoio político para o cartola se desmanchou, com a saída de grupos. Entre os motivos para a debandada, está a crise de imagem da administração de Casares.

Em cerca de um mês, foram reveladas suspeitas de corrupção na gestão do clube. A Polícia Civil conduz inquéritos, o Ministério Público acaba de se juntar à força-tarefa, e a imprensa tem publicado tanto resultados da investigação quanto outras acusações.

Diante da quantidade de casos em andamento, não necessariamente relacionados, o Sport Insider faz a compilação das informações trazidas à tona, para facilitar a compreensão do torcedor e do mercado sobre o que pode derrubar o mandatário.

O caso do camarote
A primeira denúncia foi revelada em 15 de dezembro, pelo ge, com base em áudios incluídos em disputa judicial que envolve Rita de Cassia Adriana Prado, intermediária da exploração de um camarote no Morumbi; Douglas Schwartzmann, diretor adjunto da base do São Paulo e aliado de Julio Casares; e Mara Casares, ex-esposa do presidente e até então diretora feminina, cultural e de eventos do clube.

O camarote 3A, no setor leste do estádio, foi repassado para que Adriana vendesse a terceiros ingressos para o show da cantora colombiana Shakira. A intermediária alega que foi lesada por uma empresa de eventos, que teria comprado as entradas por R$ 132 mil e pagado somente R$ 100 mil. Ela entrou na Justiça para receber o valor.

Quando o caso foi judicializado, Douglas e Mara passaram a fazer pressão sobre a intermediária, para que ela abandonasse a cobrança. Em áudio, o diretor do São Paulo admite que o repasse do camarote era feito de maneira “clandestina”.

“Nós três sabemos como foi feito. Você não é boba, nem eu nem ninguém. Isso foi feito de forma indevida. Foi feito um favor. E você está gastando um favor, queimando as pessoas que te ajudaram. O erro seu lá atrás deu um prejuízo, acabou. Não tem recuperação, querida. Não tem”, disse Douglas em conversa com Adriana.

Mara e Douglas afirmaram, em notas separadas, que não receberam dinheiro pela cessão do camarote. Mara admitiu que a cessão do camarote para Adriana fora viabilizada por sua diretoria no clube, mas alegou que não havia dado autorização para a revenda dos ingressos. Já Douglas disse que tentara sanar a disputa, a fim de evitar desgastes para o São Paulo, e se eximiu de participar da operação comercial.

A entrada da Polícia Civil e do MP-SP
A Polícia Civil passou a investigar o São Paulo depois de ter recebido, pelos Correios, uma denúncia anônima. Tiago Correia é o delegado responsável pelo caso. Ele disse que o autor da denúncia afirma haver desvios “estruturados e sistemáticos” no clube. O inquérito é a base da reportagem veiculada pelo Fantástico, no domingo (11).

A polícia revelou ter tido acesso às contas são-paulinas. O relatório produzido por ela aponta para 35 saques em espécie, entre 2021 e 2025, que somam R$ 11 milhões.

Os primeiros dois saques foram feitos por um ex-funcionário da associação. Todos os outros ocorreram com o apoio de uma empresa de carros-fortes, na boca do caixa. Segundo o delegado, a escolha por esse meio dificulta o rastreio do dinheiro.

A investigação também identificou uma série de depósitos feitos em conta bancária conjunta de Julio e Mara Casares. Entre janeiro de 2023 e maio de 2025, foi depositado R$ 1,5 milhão em espécie na conta do casal.

O ponto que os investigadores tentam desvendar neste momento é se há ligação entre os saques, no caixa do São Paulo, e os depósitos, na conta dos dirigentes.

A defesa de Casares é feita pelos advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine. Eles afirmam que “todas as movimentações financeiras de Julio possuem origem lícita e legítima, com lastro compatível com a evolução de sua capacidade financeira.”

O Ministério Público entrou na investigação, em força-tarefa que vai incluir os promotores José Reinaldo Guimarães Carneiro e Tomás Busnardo Ramadan. Carneiro investigou a Máfia do Apito e a relação entre Corinthians e MSI, nos anos 2000.

O caso da empresa de limpeza

Na última sexta-feira (9), o Estadão revelou que o São Paulo mantém contrato com uma empresa de limpeza, a Milclean, ligada a um antigo sócio de Reinaldo Carneiro Bastos. Reinaldo é presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF).

O acordo rende à empresa R$ 6,8 milhões por ano. Ele foi assinado em dezembro de 2024, com data retroativa para o início dos serviços, em junho do mesmo ano.

Segundo os documentos obtidos, o contrato exige que o clube tenha um mínimo de 96 funcionários para a limpeza, de segunda a sábado, e 95 nos domingos e feriados. Apesar disso, a quantidade de empregados alocados não tem sido cumprida.

A proximidade entre Carneiro Bastos e o dono da empresa, Otávio Alves Corrêa Filho, passa de 40 anos. Eles participaram juntos da administração do Taubaté e da própria federação paulista. Corrêa Filho também tem participação sobre imóveis junto da esposa de Carneiro Bastos, casada em comunhão total de bens com o dirigente.

O presidente da FPF foi sócio da própria empresa de limpeza, a Milclean, até 2021, quando vendeu a sua participação sobre o negócio por R$ 3,9 milhões.

Em nota, a federação paulista afirmou que Reinaldo Carneiro Bastos se desvinculou totalmente da empresa em 2021 e que não possui cargo ou remuneração nela.

“É completamente desonesta a tentativa de ligá-lo a um suposto contrato entre a Milclean e o São Paulo Futebol Clube”, redigiu a entidade em resposta ao jornal.

Já o São Paulo afirmou que a escolha da empresa foi feita por meio de concorrência, da qual participaram sete empresas, e que a oferta da Milclean teve o custo mais baixo. O clube reforçou que não há vínculo entre a firma e o cartola da federação.

Fonte: O Estado de São Paulo

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