Polícia vê associação criminosa no São Paulo e põe aliado de Casares no centro de fraude em camarotes

Um relatório do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) concluiu que Rita de Cássia Adriana Prado, Mara Casares, Douglas Schwartzmann e Marcio Carlomagno eram sócios informais em uma “associação criminosa profissionalizada”, com divisão fixada de lucros, em um esquema de venda ilegal de camarotes que lesava o São Paulo.

As conclusões são fruto da análise de um caderno encontrado durante busca e apreensão da Polícia Civil em janeiro deste ano, como desdobramento das investigações do inquérito que apura a comercialização clandestina de camarotes do São Paulo, no Morumbi, revelada pelo ge.

O relatório coloca, pela primeira vez, Marcio Carlomagno dentro do esquema. O ex-superintendente geral do São Paulo havia sido citado por Douglas Schwartzmann como o responsável por ceder o espaço para Mara Casares, mas, agora, é visto pela Polícia Civil como parte da “sociedade”.

“Este documento (o caderno) é o elo que une Marcio Carlomagno, a influência de Mara Casares e Douglas Schwartzmann e a operação de Adriana Prado em uma engrenagem sistêmica de saque ao patrimônio”, destacou o relatório da Polícia.

No áudio revelado pelo ge em dezembro do ano passado, Douglas Schwartzmann apontava Marcio como o responsável por ceder o espaço ao trio. No dia em que foi divulgado o esquema, Carlomagno negou ter recebido dinheiro com a cessão de camarotes no Morumbi.

Procurado nesta quinta-feira, Marcio Carlomagno, em comunicado enviado por sua defesa, não se manifestou “por não ter tido tempo hábil para acesso ao documento, mas que veemente nega qualquer relação com Adriana e assunto comercialização de ingressos camarote SPFC”.

O conteúdo das anotações
O caderno foi encontrado no endereço de Rita de Cássia Adriana Prado, apontada como sócia informal dos agora ex-dirigentes, e analisado para a produção de um relatório.

A Polícia Civil concluiu que o esquema durou quase dois anos, desde o show da banda britânica Coldplay, em março de 2023, até a apresentação da cantora colombiana Shakira, em fevereiro de 2025.

Em uma das páginas, Adriana, como é chamada pelos demais envolvidos, escreveu “todos s/ problemas até fevereiro de 2025”. Depois, fez duas anotações: “email p/ Mara” e “show Coldplay”.

O entendimento dos investigadores é de que estas páginas são uma espécie de linha do tempo do esquema, mostrando que a exploração clandestina de camarotes do Morumbi acontecia “sem problemas” até fevereiro de 2025.

Outras páginas do caderno também colocam, na análise dos investigadores, Adriana como a “operadora logística e financeira”, responsável por revender ingressos de shows e dividir o lucro com os demais membros da sociedade informal.

Os dirigentes, inclusive, são chamados por Adriana de “sócios”. Em outro trecho das anotações, ela desenha como funcionaria a divisão de lucros da sociedade e qual era o cargo de cada um de seus membros dentro do São Paulo:

Apesar de ser chamado de “vice-presidente” por Adriana em suas anotações, Marcio Carlomagno ocupava, na verdade, o cargo de superintendente geral do São Paulo. O dirigente era também a principal aposta de Julio Casares para ser o candidato da situação na eleição do fim de 2026, antes de o então presidente sofrer impeachment e renunciar ao cargo.

O entendimento da polícia é de que Adriana pode ter apenas se confundido em relação ao cargo de Marcio, mas a alcunha de “vice-presidente” nas anotações pode demonstrar a importância que ele tinha no São Paulo na visão dela.

Depois de definir quem eram seus sócios no esquema, Adriana anotou, concluíram os investigadores, o que parece ser a divisão dos lucros com a exploração dos camarotes:

As páginas em que Adriana escreve os nomes de Mara, Douglas e Marcio abaixo da palavra “sócios” e “25% para cada” são apontadas no relatório como uma prova fundamental no inquérito que apura as irregularidades. As anotações são vistas como o “memorial contábil e jurídico” do esquema.

“Prova material de que o lucro oriundo da exploração clandestina dos camarotes e demais ativos do clube não se tratava de um eventual bônus. O registro demonstra a existência de uma taxa de corrupção fixada e sistêmica, ratificando a estrutura de uma associação criminosa profissionalizada “, concluiu o relatório.

Adriana também escreve, em outro trecho das anotações, perguntas que parecia querer fazer a algum dos envolvidos, como: “corrupção é só da parte deles?” e “o que pode respingar em mim?”. Assim, ela admite que havia corrupção, destacam os investigadores.

As anotações ainda indicam, na visão dos investigadores, que Adriana bolou uma estratégia para sair do esquema com os dirigentes e voltar ao São Paulo de outra maneira. Em determinado momento, aponta o relatório, a investigada demonstra o interesse de estar “legalmente” no clube, deixando claro que sua atuação até ali era clandestina.

Os investigadores também concluíram que, numa linha do tempo, Adriana deixou a “função” de sócia para se tornar uma delatora do esquema, anotando estratégias para vender informações para tentar se proteger e registrando o descontentamento com os dirigentes, ao manuscrever que “vocês me colocaram p/ fora SPFC”.

A investigação viu indícios de um “ensaio” para um depoimento falso entre as anotações de Adriana. Em um pedaço do caderno, ela escreveu “eu não tenho conhecimento de nada”, mas riscou. Isso, na visão dos investigadores, é uma confissão de que a “tese da ignorância” não seria sustentável.

Logo abaixo, na mesma página, Adriana escreveu: “Eu sabia que existia”. Para os investigadores, isso também serve como confissão.

Os investigadores destacaram que Adriana também mostrou, em suas anotações, um temor com sua integridade física. Ela escreve “atentando a minha vida e integridade física”. A Polícia acredita que a investigada estava se sentindo encurralada em determinado momento do esquema.

Entre suas conclusões finais, a Polícia diz que a análise da caderneta e dos documentos apreendidos no endereço de Rita de Cássia Adriana Prado são o suficiente para definir que a investigada era uma peça central de uma “associação criminosa” para a exploração do camarote.

O que dizem as partes
Procurada, a Polícia Civil informou apenas que “o caso é investigado, sob sigilo, pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). Diligências estão em andamento visando ao esclarecimento dos fatos”.

Os advogados de Douglas Schwartzmann disseram que “o inquérito policial tramita sob sigilo. Chama a atenção da defesa o vazamento seletivo de documentos tirados de contexto. A defesa, inclusive, tomará medidas judiciais para apurar a origem dos vazamentos recorrentes de informações sigilosas. O relatório da polícia tem como origem um caderno com anotações isoladas, desprovidas de sequência lógica ou cronológica e que não reúne requisito mínimo de confiabilidade jurídica. Resta evidente que há uma campanha difamatória contra o Sr. Douglas Schwartzmann.”

Já os advogados de Rita de Cássia Adriana Prado, em nota, disseram:

“Os advogados Victor Pegoraro e Gabriella Silvestre, constituídos na defesa de Rita de Cássia Adriana Prado, informam que tomaram conhecimento, por meio da imprensa, da existência do relatório mencionado.

Ressalta-se, contudo, que se trata de documento inserido em investigação que tramita sob segredo de justiça, razão pela qual seu teor será oportunamente analisado de forma técnica e minuciosa pela defesa, no momento processual adequado, quando serão compartilhados pela Força Tarefa todos os documentos e informações pertinentes, oportunizando-se, a partir disso, o exercício da ampla defesa de todos os investigados.

Destaca-se que os elementos produzidos no curso de investigações não possuem força para afirmar qualquer culpa ou inocência, sobretudo antes de submetidos ao indispensável contraditório, pilar do Estado de Direito.

A defesa reitera que somente após o acesso integral aos autos e à totalidade das informações colhidas será possível se manifestar de forma completa e precisa acerca de todos os fatos.

Por fim, reafirma-se a absoluta legalidade de todos os atos praticados por Rita de Cássia Adriana Prado no âmbito de sua relação com o São Paulo Futebol Clube, permanecendo a defesa à disposição para futuros esclarecimentos, após tomar ciência integral de tudo que ainda esta sob segredo de justiça.”

A defesa de Mara Casares também enviou nota oficial sobre o assunto:

“Mara Suely Soares de Melo Casares, por meio de seus advogados, Rafael Estephan Maluf, Paula Stoco de Oliveira e Chiara Theodora R. Lamenha de Siqueira, manifesta-se publicamente em razão de mais um episódio de vazamento ilegal de informações oriundas de Inquérito Policial que tramita sob sigilo.

O denominado Relatório Técnico de análise de dados do material apreendido e amplamente publicado pela mídia, associado à Sra. Rita de Cássia Adriana Prado e outras pessoas, trata-se, conforme reconhecido pelo próprio documento sigiloso, de um instrumento de natureza meramente interpretativa. Em suas próprias palavras, o conteúdo representa “as conclusões dos policiais signatários, fundamentadas na análise técnica dos elementos coligidos até o momento e no exame de hipóteses e conjecturas lastreadas na experiência investigativa”.

Hipóteses. Conjecturas. Interpretações.

Fatos de tamanha magnitude e importância não podem ser tratados como verdade estabelecida com base em opiniões interpretativas e conjecturas de agentes investigativos.

Quaisquer outros esclarecimentos necessários serão prestados perante a Autoridade Policial e os membros do Ministério Público. Mara Suely Soares de Melo Casares reafirma seu compromisso irrestrito com a verdade, por ser a maior interessada na completa elucidação dos fatos.”

O esquema
Em dezembro do ano passado, o ge revelou que Douglas Schwartzmann, então diretor adjunto de futebol de base do São Paulo, e Mara Casares, ex-esposa do presidente Julio Casares e então diretora feminina, cultural e de eventos, participavam de um esquema de exploração clandestina de camarote no Morumbi.

Os dois haviam sido gravados em uma ligação com Rita de Cássia Adriana Prado em que discutiam o esquema. Douglas Schwartzmann, inclusive, admitia que “todos” haviam ganhado dinheiro.

– E vou repetir uma coisa. Você é uma pessoa que a Mara confiou. Eu só entrei nisso porque a Mara me garantiu que você era de total confiança. Desde o primeiro dia que eu te falava isso. Não podemos fazer coisa errada aqui. Então, teve negócio que você ganhou dinheiro, eu ganhei, todo mundo ganhou. Mas foi feito tudo na confiança. Coisa errada? Errou, tem que comer com farinha. Não tem jeito, querida. Não tem outro jeito. Não tem outro jeito. Não tem – disse Douglas.

Em outro momento da ligação, o agora ex-diretor dizia que Marcio Carlomagno foi quem cedeu o camarote para Mara Casares.

– Eu não tenho camarote lá. Veio de quem? O que vai acontecer: a Mara vai ter que se explicar. Como é que faz no clube a hora que souber que ela te deu um camarote para explorar? Você vai acabar com a vida da Mara dentro do clube. E do Julio, porque ela é (ex) mulher do Julio.

– E o Marcio vai ser mandado embora, porque foi ele quem concedeu o camarote para ela (Mara). Eu não tenho nada com isso, não tenho meu nome em nada. Não peguei camarote nenhum, não tenho nenhum documento lá. Agora, a Mara tem e o Marcio também. Quer prejudicar a Mara e o Marcio? Só queria entender o que você quer fazer com isso.

Todos os envolvidos no caso deixaram o São Paulo. Horas depois da divulgação do áudio, Mara e Douglas renunciaram às diretorias que ocupavam. No início do ano, com o impeachment e a renúncia de Julio Casares, Marcio Carlomagno foi demitido.

O Ministério Público pediu, ainda no ano passado, a abertura de um inquérito policial para apurar a exploração ilegal de camarote no Morumbi. A Polícia Civil acatou ao pedido e iniciou a investigação.

Depois, a Polícia Civil e o Ministério Público se juntaram numa força-tarefa que investiga o caso. A investigação já tem provas de que o espaço já era explorado irregularmente pelo menos desde 2023, mas ainda ouve os investigados e testemunhas do caso.

 

Fonte: Globo Esporte

Um comentário em “Polícia vê associação criminosa no São Paulo e põe aliado de Casares no centro de fraude em camarotes

  1. Por isso o interesse de alugar o estádio para shows… O ganho financeiro era bom para a gang e o ganho esportivo pouco importava. As peças se encaixam…

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