Wendell revela cobrança em casa por sucesso no São Paulo

O São Paulo contratou o lateral-esquerdo Wendell em fevereiro deste ano. Depois de meses de conversas, negociações e desejo mútuo, o Tricolor conseguiu convencer o Porto a liberar o jogador de 32 anos para que ele deixasse Portugal e voltasse para o Brasil 11 temporadas depois de chegar ao futebol europeu.

Mais maduro do que em 2014, quando trocou o Grêmio para ir à Alemanha jogar no Bayer Leverkusen, Wendell tem consciência de que ainda não atingiu o máximo de sua performance. Contratado para resolver carências na lateral esquerda do São Paulo, o experiente jogador tem trabalho para equilibrar as expectativas até dentro de casa com o tempo natural de readaptação ao futebol brasileiro.

– Eu falava com minha mulher, meus pais, meus irmãos, filhos… Porque normalmente as pessoas acham que as pessoas ao seu lado não sofrem. Mas são essas pessoas de casa que te cobram. Acha que a minha mulher não me cobra todo dia? Ou que minha mãe não me liga perguntando: “o que está acontecendo?”? Não temos que provar as coisas só para os torcedores.

– Dentro de casa a cobrança é muito forte também. Isso não nos deixa acomodar. E foi isso que procurei fazer. Não me acomodar. Procurei trabalhar caladinho, com humildade, como todos os companheiros – disse Wendell, ao ge.

O lateral-esquerdo foi titular de última hora na vitória por 2 a 0 sobre o Corinthians, no último sábado, no Morumbis, em sua melhor noite com a camisa do São Paulo. Enzo Diaz começaria jogando, mas uma indisposição tirou o argentino do clássico. Wendell, então, entrou, foi bem e deu até assistência para Luciano marcar o segundo gol tricolor.

– Eu fiquei sabendo no aquecimento (que entraria). Quando comecei a aquecer, no meio do aquecimento o preparador me chamou porque o Enzo estava se sentindo mal. O Crespo me pediu para fazer o que treinamos, porque ele treina todo mundo para estar preparado para o jogo.

– Eu já faço meu jogo na minha cabeça antes de começar, memorizo onde a bola pode chegar, onde não pode chegar. Acho que isso tudo é preparação. A partir dali é só ajustar algumas coisas, um improviso ou outro. Deu tudo certo. Não só eu, mas toda a equipe, os torcedores também nos apoiaram os 90 minutos. Agora é uma virada de chave e espero que o São Paulo trilhe um caminho de vitórias – disse.

Antes de chegar ao São Paulo, porém, Wendell viveu momentos que acredita terem impactado no presente. Apesar das boas lembranças de 2024, quando foi convocado pela seleção brasileira para disputar a Copa América, o lateral-esquerdo perdeu espaço no Porto e ficou praticamente sete meses sem jogar.

Depois da Copa América, que terminou em julho, Wendell só esteve em campo por 47 minutos pelo Porto, em dois jogos, um pela Taça de Portugal e outro pelo Campeonato Português. O lateral ainda foi convocado mais uma vez para as Eliminatórias da Copa do Mundo, mas também só atuou por 16 minutos.

– E eu cheguei com uma expectativa alta de jogar, ajudar o São Paulo, até pelo o que eu tinha feito no passado. Fiquei 11 anos na Europa, tinha jogado uma Copa América, sido convocado para a Seleção. Então é o natural você ser cobrado pelo o que você é, mas eu também tinha minha cobrança interna. Não tem nada a ver com o calor (não ter jogado tanto aqui). Falei na esportiva. Eu passei por um momento difícil depois da Copa América, fiquei 6 meses sem jogar. Isso me atrapalhou um pouco. Essa adaptação. É outro futebol – conta Wendell.

Entre chutes e socos
Entre jogos no banco de reservas, a expectativa para jogar aquilo que sabe que pode e a pressão externa, Wendell tem um hobby que o ajuda a diminuir a tensão. O lateral-esquerdo troca os chutes pelos socos e pratica boxe há quatro anos, quando decidiu entrar numa academia em Portugal.

Ainda sem um mestre no Brasil, ele tem improvisado maneiras de aliviar o estresse dentro de casa e usar o esporte como uma maneira de evoluir ainda mais no futebol.

– Eu sempre gostei. Sempre gostei de assistir MMA, boxe, gosto muito de muay thai, de ver lutas. É uma coisa que me acalma, que me mantém tranquilo, que me mantém concentrado, focado. Na luta, você tem que estar sempre ligado nas suas ações, no seu adversário, em tudo. Às vezes a gente não vai bem num treino, aí chega na academia, dá uns socos e acalma, tirar aquela carga pesada. Como posso te falar? É uma terapia. Muitas pessoas fazem algumas coisas como ler, ir num cinema, jogar um tênis, um futevôlei.

Desde quando chegou ao São Paulo, Wendell entrou em campo 17 vezes, mas apenas 11 como titular. A concorrência com o também recém-contratado Enzo Diaz e o prata da casa Patryck dificultou a sequência para o lateral-esquerdo.

– Você fica um pouco frustrado, um pouco triste, se perguntando porque não está acontecendo, não está jogando. Mas a gente sempre olha o nosso, não olha o nosso companheiro, o que o treinador quer. Acho que muitas vezes olhamos muito para dentro de nós e não analisamos a situação. Acho que o Enzo vem muito bem. O Patryck também trabalhando muito bem aqui. Eu vinha trabalhando, tentando buscar meu espaço. Mas sempre respeitando meus companheiros. Primeiro você tem que ser melhor do que você, para depois buscar o concorrente – completou.

Entre os concorrentes estão, também, todos os laterais-esquerdos que sonham com uma vaga na seleção brasileira. Convocado para a seleção brasileira no ano passado, Wendell ainda sonha em voltar a defender o seu país. Para isso, porém, prefere esquecer um pouco a camisa verde e amarela no presente para voltar a vesti-la no futuro.

– É sempre um objetivo. Quando tem um objetivo traçado tem que estar sempre em busca dele, mas primeiro tenho que buscar ser melhor e ajudar o São Paulo. As pessoas que estão lá (na Seleção) me conhecem, sabem do meu potencial, do meu caráter, também, mas pretendo primeiro me estabilizar no São Paulo. Primeiro, ser melhor a cada jogo aqui, para poder ter uma nova oportunidade lá e representar meu país, que é sempre um sonho – completou.

 

Wendell disputou dois jogos na Copa América do ano passado, além de acumular outras convocações para Eliminatórias da Copa do Mundo. Nesta temporada, porém, não recebeu novas chances.

O foco de Wendell, agora, é a partida contra o Juventude, nesta quinta-feira, às 19h (de Brasília), no Alfredo Jaconi, pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro. O lateral-esquerdo deve novamente ser titular do São Paulo.

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