Recordista na era Ceni, Denis quer atuar na final da Copa do Brasil


Ao entrar em campo nesta quarta-feira, contra o Inter, pelo Brasileirão, Denis se tornará o reserva com mais atuações durante os 15 anos de titularidade absoluta de Rogério Ceni no São Paulo. O 55º jogo pelo Tricolor, porém, ainda não é suficiente para o camisa 22, que, no começo de carreira, deixou de ser guia turístico em Brotas para se arriscar no futebol.

Diante da possibilidade de voltar para o banco nas próximas semanas, caso o ídolo e capitão do São Paulo se recupere de cirurgia no ombro direito, o atual dono da meta tricolor não esconde seu desejo de continuar jogando para ser campeão da Copa do Brasil atuando em todas as partidas do campeonato.

É sobre esse e outros assuntos que o camisa 22 fala nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, concedida pouco antes do embarque do elenco são-paulino para Porto Alegre. Animado pela promessa da diretoria de que será o substituto de Rogério Ceni quando o camisa 01 (com vínculo até dezembro) se aposentar, Denis, o último reserva do maior goleiro artilheiro da história do futebol, superará o primeiro deles: Roger, dono de 54 jogos entre 1997 a 2005.

Gazeta Esportiva.Net: Quando você soube da possibilidade de se tornar o reserva que mais atuou na era Rogério Ceni? 
Denis: Sempre acompanhei todos os números possíveis de serem atingidos aqui no São Paulo. Depois da lesão do Rogério, com esta sequência que eu teria, sabia que poderia alcançar alguns recordes na era Rogério Ceni. Isso está acontecendo e estou muito feliz.

 

GE.Net: Então você acompanha estes números desde quando chegou? 
Denis: Sempre acompanhei. Quando cheguei aqui, vi o número de jogos do Bosco (saiu do clube no ano passado com 43) e, no meu primeiro ano aqui, atuei em 20 partidas. Peguei só para dar uma olhada em qual goleiro mais tinha jogado e algumas pessoas comentavam comigo também.

GE.Net: Bater esse recorde era uma meta? 
Denis: Não. Minha meta era jogar aqui quando o Rogério se aposentasse, eu não contava com nenhuma lesão. Infelizmente ele teve uma lesão grave no início do ano, fez a cirurgia e pude jogar com uma sequência boa.

GE.Net: O que representam estes 55 jogos no São Paulo para você? 
Denis: Representam uma marca muito boa e muito difícil de ser conquistada no São Paulo. Depois da era Rogério, pretendo jogar muito mais ainda, fazer uma história e ser o número 1 do gol do São Paulo.

GE.Net: Destes 55 jogos, qual foi o mais marcante? 
Denis: Não tem um, são vários: a minha estreia contra a Portuguesa (vitória por 2 a 0 em 25 de janeiro), a minha estreia como titular contra o Palmeiras (0 a 0 em 25 de maio de 2009), a minha estreia na Libertadores nas quartas de final (derrota por 2 a 1 para o Cruzeiro, em 27 de maio de 2009), o jogo contra o Vasco no ano passado (0 a 0 em 30 de outubro)… Esses vão ficar na lembrança para o resto da vida.

GE.Net: O 0 a 0 contra o Vasco no Brasileiro do ano passado representa bastante por ter sido seu primeiro jogo como titular após quase dois anos? 
Denis: Tive uma atuação muito boa. Foram vários jogos (133) sem entrar como titular. Fiz uma partida muito boa para um goleiro que ficou muito tempo sem jogar. É um jogo que me marcou muito.

GE.Net: Você nunca foi campeão como profissional… 
Denis: (Interrompe, mostrando ansiedade para falar do assunto) Não. É uma meta, um sonho que tenho de alcançar em breve.

 

GE.Net: Se o São Paulo for à final da Copa do Brasil e o Rogério for escalado, como ficará a sua cabeça? 
Denis: Lógico que, depois de ter jogado o campeonato todo, vou querer atuar na final. Se o Rogério estiver à disposição e o professor colocá-lo para jogar, pela história que tem, jamais vou ter algum receio ou tristeza. Vou ficar feliz se formos campeões. Mas, se eu puder atuar, vai ser um dia muito especial na minha vida. (Aumenta o tom de voz) Eu seria campeão no São Paulo jogando o campeonato todo, o que não acontece desde quando o Rogério começou a ser titular, em 1997.

GE.Net: Você demonstra conhecer a carreira do Rogério, já o usou como exemplo por ter também esperado pelo Zetti antes de virar titular. Alguma vez ele já conversou com você pedindo calma porque sua chance vai chegar? 
Denis: Nunca tive essa conversa com ele. Mas conheço um pouco a carreira do Rogério pela história que ele tem e porque cresci vendo-o jogar. Se ele esperou quatro anos no banco do Zetti, estou esperando meu tempo. Só que estou com uma felicidade um pouco maior de jogar um pouco mais rápido. Infelicidade dele, que teve uma lesão grave. Por outro lado, já que isso aconteceu, é uma felicidade para mim, posso atuar ajudando o São Paulo e mostrando meu trabalho.

GE.Net: Como fica a cabeça de um jogador que sabe: só vai ser escalado quando o colega se machucar? 
Denis: Goleiro joga um só, isso já é complicado. Fui contratado pelo São Paulo para ser o terceiro goleiro, já tinha o Rogério e o Bosco, que eram experientes. Cheguei para ser trabalhado para quando eles parassem ou acontecesse alguma eventualidade. Com três dias de clube, já entrei e atuei. As coisas para mim aqui no São Paulo aconteceram muito rápido. Mas saber que às vezes vai treinar um longo tempo e não vai jogar é meio complicado, é necessária uma cabeça boa. Facilitava um pouco mais meu dia a dia ser uma pessoa tranquila que já veio com esse pensamento de trabalhar e me esforçar ao máximo para fazer meu melhor e agarrar a oportunidade quando a tiver.

GE.Net: Você estreou contra a Portuguesa porque o Bosco estava machucado. Você treina com a preocupação de não se contundir para não perder uma rara chance de jogar? 
Denis: Graças a Deus, treino o máximo possível e praticamente nunca tive nenhuma lesão séria. Isso é um pouco de sorte também. Estou sujeito todos os dias nos treinamentos a acontecer alguma coisa, mas espero que demore muito tempo. Quero aproveitar a oportunidade que estou tendo e estar dentro de campo ajudando a equipe.

GE.Net: Explique o dia a dia de um goleiro que desde 2009 treina sabendo que dificilmente vai jogar. Você se lembra de um dia no qual estava bem chateado com essa situação? 
Denis: O ano mais difícil para mim no São Paulo foi 2010, quando não atuei em nenhuma partida. Praticamente eu vinha só para treinar, sabia que não ia jogar. Algumas vezes tinha algumas possibilidades com algumas dores do Rogério, mas o conheço, ele não ia sair por alguma coisinha. Se eu falar que chegava todos os dias na minha melhor condição psicológica para treinar, é mentira.

GE.Net: Como você se motivava? 
Denis: Eu mudava meu pensamento: a única forma de mostrar meu trabalho aqui dentro do São Paulo era treinando. Eu não ia jogar, então como ia mostrar para todos que tinha qualidade e possibilidade de estar no São Paulo para, se um dia o clube precisar, ter condição de atuar? Nos treinamentos. Eu me dediquei ao máximo todos os dias de todas as formas possíveis, me aperfeiçoei no máximo que podia. No dia em que eu chegava desanimado, tentava mudar rápido meu pensamento para que pudesse desenvolver o melhor possível dentro do treino.

GE.Net: De onde você tira paciência? 
Denis: Tive que aprender a ser paciente. Quando eu era mais jovem, era um pouco mais estourado, mas aprendi que isso não leva a lugar nenhum. Hoje sou uma pessoa totalmente diferente, bem mais tranquila do que há dez anos, quando saí de casa para tentar uma carreira no futebol.

GE.Net: Você parece se motivar pensando a longo prazo. 
Denis: Tenho um contrato longo, até 2016. Nada que aconteça agora vai me deixar abalado. Vou sempre procurar dar o máximo para estar bem fisicamente e psicologicamente.

GE.Net: Nestas quatro temporadas, chegaram propostas de outros clubes para você? Nenhuma te balançou? 
Denis: Alguns clubes me procuraram, mas vim para o São Paulo determinado a jogar aqui, com contrato longo para que eu pudesse conhecer como o clube funciona, os atletas, trabalhar com o Rogério e ir me aperfeiçoando para substituí-lo. Não tive nenhuma proposta concreta também, só algumas especulações. E não tenho interesse nenhum nisso neste momento.

GE.Net: Você se imagina chegando a mil jogos no São Paulo? 
Denis: Não digo mil porque antigamente tinham mais jogos no ano. Se você jogasse todas as competições, chegava a 75, quase 80 jogos. Hoje em dia é muito difícil alcançar este número. Mas pretendo atingir os números necessários para conquistar algum título, ajudar o São Paulo a ser campeão e dar alegria a todos aqui dentro.

 

GE.Net: Existe a expectativa de ser, enfim, titular absoluto no ano que vem? O contrato do Rogério acaba em dezembro. 
Denis:Se o Rogério parar no fim do ano, espero sim ser o goleiro número 1 e ajudar o São Paulo em todas as competições pela grandeza que tem. Vou fazer de tudo para ser um goleiro que conquiste vários títulos também.

GE.Net: Você já está jogando seguidamente há quase seis meses. Mudou sua perspectiva de como goleiro? 
Denis: Goleiro tem que melhorar a vida toda, nunca vou estar com meus 100% dentro de campo. É uma posição às vezes meio ingrata, a única que não pode errar porque acontece o gol e é crucificado. É diferente de um atacante que às vezes erra um gol no começo do jogo, faz um no final e vira herói. Se o goleiro errar no começo do jogo, pode fazer a defesa que for que isso não vai acontecer. Por isso essa determinação e esse treinamento mais intensivo. Hoje me vejo totalmente diferente de seis meses atrás. Eu me sinto um goleiro bem mais tranquilo dentro de campo, que conversa mais com a zaga e sabe orientar um pouco mais. Essa experiência que estou pegando nestes seis meses é muito importante.

GE.Net: Você disse se sentir mais tranquilo. Um erro como o que você cometeu contra o Santos (espalmou para dentro um chute de Neymar na eliminação do Campeonato Paulista) geraria um baque maior se ocorresse antes? 
Denis: Não diria que daria um baque maior. Goleiro tem que estar preparado para tudo. Mais preparado para acertar do que para errar, mas, quando o erro acontecer, estar tranquilo e erguer a cabeça porque precisa se levantar no mesmo jogo, não pode se deixar abater senão outro erro vai acontecer. Se acontecesse um erro desses no comecinho do ano, eu estaria mais tranquilo, mas as pessoas não iam ficar tão tranquilas quanto ficaram depois do jogo contra o Santos. Não é bom que aconteça nunca, mas não ter acontecido nos primeiros jogos foi muito bom.

 

GE.Net: Você atualmente é o goleiro titular do São Paulo. O que fala para o Léo e o Leonardo, que são seus reservas e terão de esperar mais ainda por uma oportunidade?
Denis: Eles vão precisar da mesma paciência que tive. Procuro conversar bastante com eles. Meu colega de quarto é o Léo e tento orientar. Não sou tão mais velho que ele (Denis tem 25 anos e Léo, 21), mas tenho uma carreira um pouco mais longa, uma experiência um pouco maior. Tudo que me passaram quando eu era mais novo, procuro passar para eles crescerem e ficarem tranquilos.

GE.Net: Como é o seu relacionamento com o Leão? Por ter sido goleiro, ele te dá umas dicas ou trabalhos específicos? 
Denis: Por ter sido goleiro por muitos anos, de Seleção Brasileira, às vezes ele cobra bastante. Pegar um pouquinho da experiência dele vai ser ótimo. É um degrau que estarei subindo na minha carreira aprendendo com uma pessoa que já passou por tudo que estou passando hoje. Isso é importante.

 

GE.Net: Ainda está longe, mas você tem a ideia de encerrar a carreira no São Paulo?
Denis: Rapaz… (Fica pensativo) Não estou nem no começo ainda da minha carreira, falar em encerrar fica difícil. Mas pretendo ajudar o São Paulo, conquistar vários títulos, fazer uma história aqui. E se possível, daqui 15 ou 16 anos, me aposentar. É uma meta. Brinco com meus familiares e a minha esposa que tenho mais 15, 16 anos de luta no futebol para jogar até os 40, quem sabe até os 41. Vou me preparar ao máximo para chegar a essa idade jogando um bom futebol.

Fonte: Gazeta  Esportiva

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