Juvenal conta histórias: papo com Lula, relação com Marin e inferno na CBF

Juvenal Juvêncio é do tipo que não revela a idade. Um abraço ou um telefonema para desejar parabéns por mais um ano de vida podem ser mal recebidos. “Não sou um cara fácil”, admite, de um modo geral e sem especificar o tema. A rejeição ao próprio aniversário só ilustra a personalidade do homem que deixará a presidência do São Paulo no próximo dia 16. Juvenal acompanha com tranquilidade suas últimas duas semanas no comando do clube, demonstra total confiança na eleição de seu indicado à sucessão, Carlos Miguel Aidar, e aproveita para contar ao UOL Esporte algumas de suas histórias mais recentes no futebol: as conversas com Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Copa do Mundo de 2014, a relação cultivada com José Maria Marin desde a ditadura militar, a comparação de Andrés Sanchez e Marco Polo Del Nero ao “diabo e o capeta” e até um telefonema pitoresco que recebeu do próprio Del Nero.

A conversa com Lula e a Copa fora dos campos
Jorge Araújo/Folhapress

O São Paulo sonhou com a Copa do Mundo de 2014 no Morumbi, chegou a se aproximar de Ricardo Teixeira para conseguir abrir a competição em seu estádio, reformado, mas viu o processo resultar em uma das maiores feridas do clube. As rejeições da Fifa ao projeto e a falta de garantias financeiras tornaram o sonho inviável e fizeram, sob influência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o rival Corinthians de Andrés Sanchez receber o aporte para finalmente construir um estádio e abrigar a abertura da Copa. O revés fez Juvenal Juvêncio romper com Ricardo Teixeira e se tornar um dos mais ferrenhos oposicionistas ao ex-presidente da CBF, além de grande crítico do investimento em Itaquera. Simpatizante do PT (Partido dos Trabalhadores), o dirigente são-paulino conta o que pensa hoje sobre a Copa de 2014, e o que conversa com Lula.

UOL Esporte: O senhor afirmou em novembro que o Itaquerão não ficaria para o Corinthians, mas sim para a Odebrecht, e que a empreiteira “choraria sangue” para pagar o estádio. Com a Copa mais próxima e o São Paulo em um cenário mais amistoso com CBF e Corinthians, mantém essa opinião?
Juvenal Juvêncio: Mantenho, mas não quero polemizar. É pela nação. É sério isso. A imprensa não dá a medida correta à minha participação nesse processo. Embora alguém outro dia alguém tenha dito que Juvenal Juvêncio foi o maior cidadão da luta contra Ricardo Teixeira… Eu já falei tudo que tinha que falar sobre Itaquera, mas agora tem que ver a nação.

UOL Esporte: Então hoje o senhor se coloca como favorável à realização da Copa do Mundo no Brasil?
Juvenal Juvêncio: O próprio Lula, com quem converso – e muito –, ele é corintiano… O país está convidando, o país foi buscar autorização para buscar a Copa. Eu dou um exemplo para você, e raramente eu dou. Leio muito sobre politica internacional, economia e etc. Há 50 anos a China de Mao Tsé-Tung tentou falar para nós do ocidente quem era a China. Depois de 50 anos, hoje não, mas até alguns anos, o brasileiro achava que na China se comia criancinha no prato com garfo e faca. Eles precisaram fazer Olimpíada, em 28 ou 29 dias de eventos para mostrar ao Mundo aquilo que não puderam mostrar em 50 anos.

UOL Esporte: Então, com esse exemplo da China, o senhor acredita que é possível tirar proveito da Copa do Mundo se o Brasil souber se mostrar fora do futebol? É isso o que diz ao Lula?
Juvenal Juvêncio: 
Não sei se vão conseguir isso, mas tenho que dar minha contribuição já que os fatos são irreversíveis. Hoje, o cara pega um avião e vai para Frankfurt (na Alemanha), e de Frankfurt vai para a china. Ele não volta dizendo que comeu macaco, que comeu criança. O que ele viu é lindo. Então o futebol e as olimpíadas falam ao mundo. Falam em 30 dias. Falam fortemente. E eu dizia ao presidente… é a nação brasileira. Não são só os gols que sabemos fazer. Isso nós já mostramos. Quero saber do cara que está lá na Austrália, longe do Brasil, do que está no Sri Lanka, e diga o seguinte: “Brasil, quem és tu? Como é tua cultura? Quem é o teu povo? Como vive? Como é tua escola? Tua cidade? Como é tua indústria, tua exportação? Quem é você que está ainda em desenvolvimento e quer o assento no Conselho de Segurança da ONU? Preciso saber quem é você, como você trata o problema da ecologia, o Amazonas”. O Brasil precisa, no evento Copa, jogar bola dentro daquele retângulo verde, e aqui fora é preciso que mostre e que diga quem é o país.

Marin no governo e na FPF. Com uso de força militar
Rubens Chiri/saopaulofc.net

Juvenal Juvêncio e José Maria Marin se aproximaram no fim dos anos 70. Na época, Juvenal nunca tinha sido dirigente do São Paulo, e Marin era vice-governador do estado nos últimos anos da ditadura militar no Brasil. Em 1982, ao tornar-se governador, Marin decidiu se candidatar à presidência da Federação Paulista de Futebol e tentar desbancar o antigo aliado de Arena Nabi Abi Chedid. Juvenal conta com detalhes como ajudou Marin a se eleger e não esconde que, conforme apontavam os documentos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e do SNI (Sistema Nacional de Informação), houve uso de força militar para que o atual presidente da CBF se tornasse, há mais de 30 anos, presidente da FPF. Depois, dá detalhes da relação entre os dois e explica as divergências políticas que os afastaram.

UOL Esporte: O senhor fala de Copa e citou Ricardo Teixeira. Hoje o São Paulo conseguiu reestabelecer uma relação próxima da CBF. Agora, até de aliança…
Juvenal Juvêncio: 
O primeiro amigo do Marin foi Juvenal Juvêncio, porque lá atrás nós derrotamos o Nabi Abi Chedid na Federação Paulista de Futebol [em 1982]. E eu estava lá às 5h da manhã de um domingo, naquele prédio da Brigadeiro [a antiga sede era na avenida Brigadeiro Luiz Antônio], todo envidraçado, estava todo iluminado, em todos os andares tinha gente. A eleição começava às 8h e o Nabi já tinha colocado todos seus eleitores no prédio. Quando eu atravessei a calçada, ele [Marin] me disse: “Juvenal, pelo amor de Deus, eu perdi a chave do prédio”. Eu, então, chamei o tenente Flaviano, que hoje é coronel, e falei: “Tenente, vamos arrebentar essa bosta”. Ele trouxe seus oficiais, que eram muitos, e nós arrebentamos. Quando eram 8h começamos, ganhamos o pleito e fechamos o prédio. Pusemos duas viaturas em cima da calçada e fomos embora. Elegemos o Marin.

UOL Esporte: E depois, como se construiu a relação com José Maria Marin?
Juvenal Juvêncio:
 Teve uma vez, Marin me convidou para jantar em Miami. Fomos. Eu,  Angelina, minha esposa. Enquanto jantávamos, Marin já era vice-governador, me perguntou: “Juvenal em que secretaria você vai ficar?. Você foi quem mais me ajudou”. Ele me ofereceu um lugar no governo do estado. Mas eu não quis. Disse: “Não, mas eu não vou”, e ele dizia que eu iria para o governo do estado. Ele tomou posse, fui na posse e nunca fui em mais nada do governo. A mulher dele teve uma admiração muito forte por nós, ela dizia a ele: “todos os seus amigos vêm aqui pedir alguma coisa. Você tem um amigo que você oferece tudo e que, para espanto meu, ele diz não”. A partir daí ficou uma ligação muito forte, um respeito enorme, doméstico, acima de futebol, de política, porque eu tenho opinião politica muito diferente dele, temos filosofias diferentes. Mas ficou uma amizade forte, porque era um momento em que ele era governador do estado, que foi o cargo maior que ele conseguiu na vida.

Del Nero x Andrés: entre o “diabo e o capeta”
Leandro Wen/Folha Imagem

Juvenal Juvêncio disse até o fim de 2013 que não tinha candidato para a eleição na CBF. Até aquele momento, as atenções eram divididas entre Marco Polo Del Nero, candidato de José Maria Marin, e o ex-presidente corintiano Andrés Sanchez, com quem sempre cultivou relação conflituosa no futebol, mas com quem sempre se deu bem fora do esporte. A reaproximação da CBF ao São Paulo, costurada pelo candidato à sucessão no clube Carlos Miguel Aidar, fez com que Juvenal se tornasse novamente aliado de Del Nero e Marin. O discurso, porém, não muda: para o presidente são-paulino, a escolha para a sucessão na CBF era infernal.

UOL Esporte: Até o ano passado o senhor dizia que não tinha candidato para a eleição na CBF. Agora, a meses da eleição, o São Paulo se aliou ao Del Nero em acordo com Aidar. Como fica o posicionamento do senhor?
Juvenal Juvêncio: 
Marco Polo e Marin são os parceiros, são a mesma coisa, e do outro lado tinha o Andrés. Eu estava entre o diabo e o capeta. Não vou optar pelo Sanchez, então não tenho candidato. Mas pensei: virá outro presidente, não será mais o Juvenal, porque o Juvenal queria uma guerra muito forte… Então vou no caminho mais tranquilo para o São Paulo, então vou no Marin, no Marco Polo.

UOL Esporte: O senhor foi o primeiro a assinar um documento declarando apoio ao Del Nero. Como foi reestabelecer a ligação?
Juvenal Juvêncio: 
Isso aí… Eles queriam uma reunião comigo, um encontro, e eu falei: “Eu não quero reunião nenhuma! Manda um portador de motocicleta trazer aqui”. Aí apareceu um cidadão de gravata, eu perguntei: “Onde eu assino?”, e assinei. Ele nem acreditou…

O telefonema de Del Nero: a Copa volta ao Morumbi
Leandro Moraes/UOL

Questionado sobre a aliança costurada por Carlos Miguel Aidar que reaproximou o São Paulo a CBF, e que como consequência rendeu o amistoso entre Brasil e Sérvia no Morumbi, no dia 6 de junho, dias antes da abertura em Itaquera, Juvenal contou uma história: disse que nada tem a ver com o Aidar. Passou a responsabilidade a Del Nero e Marin, que o telefonaram num certo dia para avisar da partida. Juvenal conta a história imitando as falas que ouviu das duas figuras mais importantes do futebol brasileiro atual.

UOL Esporte: A aliança entre São Paulo e CBF rendeu o amistoso entre Brasil e Sérvia, último antes da Copa, em junho, no Morumbi. Isso passou pelo Carlos Miguel Aidar, assim como uma reaproximação da TV Globo. Como o senhor vê a reaproximação do clube às entidades e instituições?
Juvenal Juvêncio:
 Vou dizer um fato que eu não falaria… Quem contou essa história que ia ter o jogo do Brasil no Morumbi para o Carlos Miguel fui eu. Teve um dia, me ligou o Marco Polo: “Alô, presidente?!”, aquele negocio dele… “Fala, Marco Polo”. Ele falou: “Marin está do meu lado, você tá bão?”, passou para o Marin. Ele começou: “Você não merece, mas vou fazer um jogo aí em sua homenagem. Toma cuidado, mas vou fazer um jogo aí em sua homenagem”. Foi isso, o jogo foi por causa disso. Ele quis fazer o jogo no Morumbi em homenagem a Juvenal Juvêncio. Fazer esse jogo em São Paulo é importante, não pela homenagem, claro. O cidadão tem que ser político, e político mesmo. Confira com o Marin. Quando você estiver em uma solenidade com o Marin e comigo, vou mandar o Marin te falar. Ou o Marco Polo, eles estão sempre um do lado do outro…

UOL Esporte: Agora, depois de oito anos, o senhor vive os últimos 15 dias como presidente do São Paulo. Com qual sentimento acha que será visto no São Paulo?
Juvenal Juvêncio: 
O que estou pensando… Dever muito cumprido. Só o tempo vai dizer isso. A razão não fala as emoções. Só o tempo vai dizer isso… E vai colocando as coisas no lugar. Não houve nenhum golpe, um estatuto que foi modificado com 95% dos eleitores favorável. Depois o lançamento abriu perspectiva pra outra candidatura, conselho aprovou com 9 votos contra. Isso ninguém vai falar. Só o tempo dirá. Eu saio com esse sentimento, entendendo que pude fazer um trabalho que vá dar muitos frutos nas próximas duas décadas.

 

Fonte: Uol

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